Domingo, 08 de Fevereiro de 2026
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Aparência nem sempre é qualidade: Seab orienta a evitar despercídio de alimentos

Aparência um pouco marcada por fora e um formato menos bonito não significam que os produtos estejam impróprios para o consumo ou com o valor nutr...

19/01/2026 às 16h16
Por: Farmers Fonte: Secom Paraná
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Foto: SEAB
Foto: SEAB

A escolha de frutas, verduras e hortaliças exige um olhar atento na hora da compra, para evitar produtos impróprios para o consumo. Alimentos mofados, amolecidos, com odor característico e prejudicados na parte interna devem ser descartados. Mas atenção: é crucial não confundir alimentos estragados com os considerados apenas mais “feios” ou “imperfeitos”. Esses últimos mantêm integralmente sua qualidade e valor nutricional. O hábito de descartá-los só colabora para o aumento dos índices de desperdício de alimentos no Brasil e no mundo. Por isso, ele precisa mudar.

Uma aparência um pouco mais marcada por fora e um formato menos bonito não significam que os produtos estejam impróprios para o consumo ou com o valor nutricional prejudicado. Essa aparência mais rústica, inclusive, pode ser um indicativo positivo, sugerindo um cultivo mais sustentável no campo, com menos uso de agrotóxicos e um manejo menos intervencionista. As marcas nos alimentos podem ser cicatrizes naturais nas cascas ou deformidades no formato, que surgem, por exemplo, após eventos climáticos como ventos, chuvas, granizo.

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“Nós, aqui no Brasil, temos a cultura de associar a perfeição e a beleza do alimento com o valor nutricional. E isso é um mito. Na verdade, nem tudo que sai da terra sai perfeito. Às vezes, o alimento estará um pouco tortinho. Às vezes, estará com uma cor um pouco diferente. Mas isso não inviabiliza o produto para comercialização”, explica a Márcia Stolarski, chefe do Departamento de Segurança Alimentar e Nutricional (Desan), da Secretaria Estadual da Agricultura e do Abastecimento (Seab).

O mito de que alimentos mais bonitos são mais saudáveis contribui para um problema associado ao desperdício, com o descarte de alimentos que poderiam ser consumidos tranquilamente, mas são retirados das prateleiras dos comércios ou acabam indo parar no lixo.

“Isso traz consequências”, diz a Márcia Stolarski. “Além do problema para o meio ambiente com a geração de gases para o efeito estufa, os alimentos que não são perfeitos, que acabam não sendo comercializados, afetam o agricultor também. Ele produz e não consegue retorno do seu investimento. Compromete toda a cadeia. Então, a conscientização do consumidor e os cuidados com o manuseio dos alimentos é que vão ajudar a reduzir o desperdício ”, completa.

Segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o mundo desperdiça mais de um bilhão de toneladas de alimentos por ano. Em 2022, foram gerados 1,05 bilhão de toneladas de resíduos alimentares, o que dá um total de 132 quilos per capita e quase um quinto de todos os alimentos disponíveis para o consumo. Do total de alimentos desperdiçados em 2022, 60% vêm do desperdício caseiro, 28% dos serviços de alimentação e 12% do varejo. Além disso, o desperdício de alimentos é responsável por cerca de 8% a 10% das emissões globais de gases de efeito estufa. Os números são do relatório do Índice de Desperdício de Alimentos de 2024, divulgado em março de 2025.

PROGRAMAS DO ESTADO -O Paraná atua de forma constante no combate a esse cenário. Além de figurar entre os estados brasileiros onde a população tem as melhores condições de acesso a alimentos, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgada em outubro do ano passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), desde 2019 o Governo do Estado desenvolve uma série de políticas públicas voltadas à garantia da segurança alimentar dos paranaenses, especialmente daqueles mais vulneráveis.

Uma delas é o Banco de Alimentos Comida Boa, programa que combate o desperdício ao transformar os excedentes alimentares das Centrais de Abastecimento do Paraná (Ceasa-PR) em produtos prontos para atender pessoas em situação de vulnerabilidade social e insegurança alimentar e também promove ativamente a reinserção social de apenados em regime semiaberto, que trabalham na manipulação dos alimentos. São mais de 600 toneladas de alimentos doadas por mês, o equivalente a 7,5 mil toneladas por ano, nas unidades da Ceasa. O programa atende 160 mil pessoas.

Há também o programa Mais Merenda, adotado desde 2020 para ofertar aos estudantes das escolas estaduais três refeições por período. Alimentando cerca de 1 milhão de alunos diariamente nas 2 mil escolas estaduais, o Governo do Estado disponibiliza, por meio do programa Mais Merenda, de três a cinco refeições por dia letivo. O programa responde por cerca de 1,5 milhão de servimentos diários e, em 2025, destinou aproximadamente 5 mil toneladas de alimentos orgânicos às escolas, representando 11% de todos os produtos adquiridos via Instituto Paranaense de Desenvolvimento Educacional (Fundepar) no ano.

Outras ações incluem o Cartão Comida Boa, que garante recurso mensal para que famílias em situação de vulnerabilidade social adquiram alimentos. O programa de transferência de renda atende, mensalmente, 112.500 famílias, com o repasse de R$ 80 para aquelas em situação de vulnerabilidade social, para que consigam ter segurança alimentar e nutricional. São mais de 545 mil famílias atendidas desde 2021, representando um investimento total de R$ 374 milhões.

Já o Compra Direta Paraná abastece entidades sociais com gêneros alimentícios provenientes da agricultura familiar. Esse alimento abastece restaurantes populares, cozinhas comunitárias e hospitais filantrópicos, além de Centros de Referência em Assistência Social (Cras) e Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas), entre outros. Em 2025, a Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab) destinou ao programa R$ 77 milhões, provenientes do Fundo Estadual de Combate à Pobreza.

E, no fim do ano passado, o Paraná divulgou o IV Plano Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional 2024-2027. O documento reúne diretrizes para a alimentação adequada e orienta as políticas públicas do Estado. O plano busca a construção de um sistema alimentar sustentável e agroecológico, com fortalecimento da agricultura familiar, estratégias de combate ao desperdício de alimentos, valorização dos circuitos curtos de comercialização e respeito aos hábitos alimentares da população.

ESCOLHA -O alimento impróprio para consumo é muito característico. O cheiro com forte odor, a presença de mofo ou uma textura mais amolecida ajudam a diferenciar o que é um alimento que está somente “feio” de algo que está estragado. Se ele não traz essas características, só não está com a aparência que o consumidor espera, isso é um feio. Então, ele pode ser consumido.

O engenheiro agrônomo do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), Raphael Branco de Araújo, explica os possíveis motivos da mudança de aparência. “Imagine a fruta lá no pé. Por algum motivo, alguém esbarra nela, algum inseto faz um dano superficial, ou surge um vento, um galho quebra e ocasiona uma ferida. O sistema metabólico da planta dará uma resposta a esse dano mecânico e se forma uma cicatriz. Ou uma mudança de cor mesmo, ficando um amarronzado que parece um risco. Isso não interfere em nada na qualidade da fruta”, orienta.

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